terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Batismo dos "bichos? Quem são os verdadeiros bichos?

O trote é proibidopor lei em SP
São 2 horas da manhã. Acordo com o som do telefone. Levanto assustada. Do outro lado da linha uma mulher pergunta:
- Por favor a senhora conhece o Paulo? (nome ficticio) 
- Sim....Ele é meu filho.
- Aqui é do pronto socorro, encontraram seu filho caído, desacordado, na estação do metrô.

Imediatamente pego a primeira roupa, mal penteio o cabelo e saio com o coração na mão, lágrimas nos olhos e um monte de interrogação sobre o que teria acontecido com meu filho. Ao chegar no PS encontro-o com as roupas rasgadas, descalço, cabelo raspado, cara pintada e em coma "Alcoólica". 
- O que aconteceu? Acorda filho!
- Senhora, ele não vai acordar agora - diz a enfermeira - um funcionário do metrô o encontrou desacordado na estação, chamou uma ambulância e o trouxeram pra cá. Conseguimos localiza-la, pois no celular que estava na mochila, havia 6 chamadas perdidas do mesmo número.

Quem não se lembra do primeiro dia de aula do filho, ainda no jardim da infância? 
Aquele dia memorável quando a criança nem tem tamanho para carregar a mochila, mas faz questão de pendurar nas costas? A mãe tira milhões de fotos e volta pra casa chorando de emoção. "Como ele cresceu!!!"
O tempo passa,  e logo a criança segue seus estudos pelo 1o. Ano, 2o. 4o. 6o......,e chega a primeira formatura ao final do 9o. ano. Quanta emoção! E quando termina o ensino médio e o filho começa a prestar vestibular, a emoção nos diz que agora chegou a hora dele seguir os próprios caminhos.  Aquele primeiro dia de aula no jardim da infância retorna com intensidade, e as lágrimas também.

Então chega o primeiro dia de aula na Universidade e......as 2 horas da manhã o telefone toca:
- Por favor a senhora conhece .......

Meu Deus, meu filho, aquele bebê recebido com tanto amor, criado com tanto cuidado, orientado a respeitar o próximo, a não se meter em encrencas, agora está ali inerte na cama de um hospital. Caio em prantos, em busca de uma palavra, uma resposta que explique o que aconteceu e sou socorrida pela mesma enfermeira que está cuidando dele.

Duas horas depois ele começa a despertar. Não me vê, não me reconhece. Sou orientada a levá-lo para casa e esperar que ele se recupere e explique o que aconteceu. Em casa, as 5 horas da manhã, ele chora e conta:

- Cheguei a faculdade e fui recebido por um grupo de alunos, que logo rasparam minha cabeça e pintaram meu rosto. Achei que tudo havia terminado, quando o grupo nos levou (eu e outros calouros) para o farol da esquina da faculdade e nos obrigou a pedir dinheiro no farol. Com o dinheiro em mãos fomos levados a um bar próximo e um coquetel de bebidas nos foi colocado na boca.
Veteranos e calouros da Uniara participam de trote em Araraquara (Foto: G1)
Reportagem do G1
- Mas por que você bebeu?
- Não tive escolha, alguns nos seguram, enquanto outros abrem a nossa boca e despejam a bebida. Não sei quanto bebi, nem como fiquei sem camiseta, mas cheguei a ver garotos vomitando e outros sendo carregados e jogados na calçada. 
- Como chegou ao metrô e como continuou com a mochila?
- Não me lembro? Sei que havia outros garotos desmaiados na saída do bar. É só disso que me lembro!

Toda essa narrativa não aconteceu com meus filhos, mas poderia ter acontecido. O filho de uma amiga, passou por tudo isso na última quarta feira , seu primeiro dia na faculdade. Assustado ele não voltou nos dias seguintes, mas sobreviveu ao que os veteranos chamam de "batismo dos bichos". 

Educação UOL
Na minha lógica, os bichos são os veteranos que tratam o semelhante como caça. Não querem nada além do prazer em prejudicar. Não se importam com as consequências e nem com a possibilidade de óbito (que pode ocorrer).

Na reportagem dessa foto, os veteranos atearam fogo no corpo do calouro, clique no link da foto para ler




Até quando essa barbárie vai continuar acontecendo em nosso país com nossos filhos? 
Que espetáculo é esse que acontece ano após ano, na frente de toda uma platéia inerte? Será que impera na humanidade a lei do "Se não é comigo, não dói? Não tenho nada haver com isso?" 
Gazeta do Povo

Existe tantas maneiras de comemorar esse momento tão importante. Li sobre casos de trote solidário (doação de alimentos, sangue, atividade física coletiva, etc..).  Também li sobre casos bizarros e nem quis compartilhar aqui para não chocar ainda mais. Lembre-se seu filho ou filha que estão ai brincando no chão da sala um dia serão os calouros e você vai ficar esperando ele chegar lá para compartilhar essa postagem?

Talvez hoje também cometam com outros garotos e garotas novas barbáries enquanto a sociedade não soltar um grito de basta. Muitos serão encontrados nas esquinas ou  nas estações, impedidos de seguir seus caminhos por escolha própria, tentando "sobreviver" nessa selva urbana.

Abçs
Cris Chabes



Nenhum comentário: